quinta-feira, 15 de junho de 2017

Homem que fugiu de rave em Camaçari, teve que sugar água da cueca para matar a sede


Nem o frio, a fome, o cansaço ou o desespero de estar em um local desconhecido deixou Eric Geovane de Oliveira, 23 anos, mais aflito do que a preocupação com seus familiares. Inclusive, por eles, o jovem buscou forças para resistir durante sete dias, em mata fechada, e andar a esmo em busca de ajuda. "Se eu morresse, a minha dor acabaria ali. Mas a dor da minha família iria durar quanto tempo?", questionou-se, em entrevista ao CORREIO. A conversa, nesta quarta-feira (14), foi na casa de um tio de Eric, em Salvador, onde ele se recupera da jornada que quase lhe custou a vida.

O jovem, que neste ano participou de quatro raves - eventos que costumam reunir milhares de pessoas que, assim como ele, curtem música eletrônica -, não imaginava que a sua primeira participação na edição da Aurora, realizada no sábado (3), em Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, se transformaria em um pesadelo. E dos piores. Não podia presumir também que as drogas sintéticas, que usava com frequência nas festas, pudessem lhe tirar a consciência ao ponto de fazê-lo procurar abrigo em uma mata, na localidade de Abrantes, depois de acreditar que estava sendo perseguido por pessoas estranhas.

As substâncias responsáveis por causar alucinações no jovem estavam no LSD e no ecstasy, drogas psicoativas capazes de estimular diversas sensações e que, em outras ocasiões, foram capazes de deixar Eric na "onda da música". Como chegou no último dia do evento, já no domingo (4), depois de sair da cidade de Irecê, onde mora, precisava curtir as últimas horas de som ao lado de três amigos. 

"Eu tinha acabado de chegar e estava totalmente lúcido. Estava pegando a festa pela metade e queria curtir o clima. Era o horário que as melhores músicas e os melhores DJs estavam se apresentando", conta ele que, diferente de outras ocasiões, tomou um LSD inteiro, misturando com um comprimido de ecstasy.

Minutos depois, as composições químicas começaram a causar sensações não vivenciadas antes pelo jovem. O clima do local, que era de descontração, enquanto estava lúcido, se transformou em um filme de terror. "Comecei a achar tudo muito estranho. Tive a sensação de que não podia confiar em ninguém. Não consigo descrever exatamente o que senti. É difícil narrar a situação. Só queria fugir dali". Foi então que, depois de retornar ao carro, estacionado a cerca de 50 metros da entrada da festa, o jovem decidiu procurar refúgio na mata.

Durante os dias em que esteve perdido, o jovem revela que, na ausência de frutas, chegou a comer formigas e a utilizar a própria cueca para absorver a água da chuva. "Durante o dia era muito calor e a noite fazia muito frio. Acho que só sobrevivi porque choveu todos os dias. Tive que comer formiga para recuperar as energias. Também tive que sugar água da minha própria cueca para matar a sede", revela.























Após ser socorrido para o Hospital Geral de Camaçari (HGC), onde ficou internado por um dia, Eric agora espera a poeira baixar para voltar para sua terra natal, onde trabalha num posto de gasolina. Enquanto isso, se recupera ao lado da mãe, de um primo e mais dois tios. O tratamento para as sequelas da peregrinação está sendo feito pelos próprios parentes. O jovem toma antibióticos a cada 8 horas, além de analgésicos para aliviar as dores nos pés, que ainda continuam inchados devido ao grande esforço físico.

"Meus planos são colocar a cabeça no lugar pra evitar situações de risco como essa. Quero limpar meu corpo e tocar a vida pra frente. Não vou mais utilizar nada. Sou um homem de palavra", garante ele, antes de sair para um passeio em comemoração ao seu aniversário, no mês em que acredita que nasceu de novo. (Correio da Bahia)

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