A Delegacia Territorial de Araci, no interior da Bahia, instaurou um inquérito policial para investigar o pai de santo Luiz Nascimento dos Santos, conhecido popularmente como “Luiz Curador”. Ele é suspeito de agredir integrantes de um terreiro de umbanda local com queimaduras provocadas por ferro quente na brasa e por charutos. Quatro pessoas procuraram as autoridades e denunciaram os episódios de violência física e psicológica que teriam ocorrido durante rituais de preparação espiritual. As vítimas passaram por exames periciais de lesão corporal na cidade vizinha de Serrinha e relataram o forte abalo emocional causado pela experiência.
De acordo com os depoimentos prestados à polícia, as agressões eram justificadas pelo religioso como procedimentos necessários para a formação de um babalorixá e como formas de proteção divina. Uma das vítimas relatou que foi marcada no peito com ferro quente feito a partir de um raio de motocicleta e que recebeu ordens expressas do investigado para não aplicar medicamentos nas feridas, devendo deixar a queimadura sarar por conta própria. Outro denunciante afirmou ter sido queimado com a brasa de um charuto durante uma oferenda. Além das marcas físicas, os relatos apontam que os umbandistas eram mantidos confinados por dias em quartos escuros e vendados, sendo privados de condições básicas de higiene e forçados a realizar suas necessidades fisiológicas em baldes.
| Luiz Nascimento dos Santos |
A Federação de Umbanda e Cultos Afro da Região de Serrinha (Fucabase) e a Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA) repudiaram veementemente as práticas e emitiram notas esclarecendo que castigos físicos e queimaduras não fazem parte dos rituais das religiões de matriz africana. As entidades ressaltaram que tais atos configuravam os maus-tratos do período da escravidão e que, no ordenamento jurídico brasileiro atual, a conduta pode ser enquadrada como crime de tortura — com pena de dois a oito anos de reclusão — ou lesão corporal grave e gravíssima, devido ao risco de deformidades permanentes. A Fucabase informou que solicitará o afastamento formal do religioso, reforçando que as casas de santo devem funcionar como espaços de acolhimento e cuidado espiritual.
Por outro lado, o grupo de filhos e filhas de santo do Terreiro de Oxóssi publicou uma nota de esclarecimento nas redes sociais defendendo o religioso e negando categoricamente todas as acusações. No comunicado, os membros da comunidade afirmaram que ninguém foi obrigado ou submetido a qualquer tipo de prática contra a própria vontade, classificando as denúncias como infundadas e decorrentes de perseguição religiosa e desinformação. O grupo alegou ainda que cada terreiro possui fundamentos e doutrinas próprias e informou que está adotando as providências jurídicas cabíveis para preservar a imagem da casa. As oitivas de testemunhas e envolvidos seguem sendo realizadas pela Polícia Civil para o completo esclarecimento do caso.




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